A Carta de Cachoeira do Sul

Carta de Cachoeira

A maior tarifa postal brasileira foi endereçada ao Dr. José Pereira da Silva Goulart, um personagem que ainda merece um livro. A carta veio do Rio de Janeiro para Cachoeira. Com o tempo vamos deslindar a vida do Dr. Goulart. Assim se chamava porque adotou o nome do padrinho que pagou seus estudos de Medicina. A carta que recebeu foi avaliada no mercado filatélico mundial em 100 mil dólares.

Olha que história! 

Paulo Comelli

Artigo originalmente publicado na revista A FILATELIA BRASILEIRA, Ano II, nº 3 – Junho/2005, órgão da Federação dos Filatelistas do Brasil – FEFIBRA – São Paulo – Brasil.

Descrição:
Carta do Rio de Janeiro para Cachoeira, Província de São Pedro do Sul, com o porte combinado de 270 réis, referente ao porte marítimo duplo do Rio a Porto Alegre no valor de 180 rs (4 a 6 oitavas de peso) + o porte terrestre duplo entre Porto Alegre e Cachoeira no valor de 90 rs (4 a 6 oitavas de peso). Porte pago através de 2 pares horizontais do 60 réis + selo de 30 réis, Olhos de Boi, obliterados com o circular de moldura dupla do “Correio Geral da Corte – 15.12.1844”. O selo de 30 rs tem a margem superior curta e um dos cantos quebrados. Carimbo de trânsito por Porto Alegre datado de 12. 01.1845. Recebida pelo destinatário em 28.01.1845 conforme anotação na frente da carta.

Trajeto Postal:
Essa carta foi transportada por barco oceânico da Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor ou por paquete de propriedade do Governo Imperial ou da Armada Imperial, entre o Rio de Janeiro e a cidade de Rio Grande, porto de acesso à Lagoa dos Patos, localizado na margem direita do Canal do Rio Grande, onde foi feito o desembarque da mala postal. Da cidade de Rio Grande para Porto Alegre, local da distribuição postal, o trajeto foi coberto pelo serviço de transporte lagunar na Lagoa dos Patos, através de barco, de calado menor e quilha arredondada, próprio para navegar em águas rasas, pertencente à mesma companhia privada acima mencionada (CBPV) ou por pequeno vapor de propriedade do Governo Imperial, que faziam regularmente a ligação lacustre entre Rio Grande, Porto Alegre, Pelotas e São José do Norte. Distribuída a correspondência na agência postal de Porto Alegre, essa carta seguiu por transporte fluvial privado a partir da capital porto-alegrense, subindo o rio Guaíba, adentrando no rio Jacuí até alcançar a cidade de Cachoeira do Sul.

Tarifa Postal Combinada – Terra e Mar:
A ligação postal entre dois portos do Brasil, a partir de 1.08.1843, pagava a tarifa marítima simples de 120 réis para as cartas com peso até 4/8 de peso; acrescia-se mais 60 réis para cada nova 2/8 de peso, para se fixar o porte duplo, triplo e assim subseqüentemente. No caso específico da Província de São Pedro do Sul era considerada tarifa marítima a ligação de qualquer porto brasileiro aos portos de Rio Grande, São José do Norte, Pelotas e Porto Alegre, pois o que ocorria era somente a transferência da correspondência, desembarcada no porto de Rio Grande, para barco de menor calado e próprio para navegar na Lagoa dos Patos, até quaisquer desses destinos portuários. O mesmo ocorria no sentido inverso para as cartas oriundas destas quatro cidades portuárias da Lagoa dos Patos e do Canal do Rio Grande. A Tarifa de Terra era adotada a partir de quaisquer dessas cidades-portos com destino às cidades do interior riograndense, e vice-versa, pagando 60 réis (porte simples) para as cartas com peso até 4/8 de peso, acrescendo-se mais 30 réis sucessivamente para cada nova 2/8 de peso. Assim sendo, mesmo usando o transporte fluvial privado como sistema de entrega da correspondência (caso de 90% das cartas naquela época) a carta pagava o porte terrestre específico. Esse sistema combinado de cobrança dos portes perdurou até o Decreto 3443, de 12 de Abril de 1865, que unificou as tarifas, o Decreto 3675, de 27 de Julho de 1866, que estipulou a tarifa única de 100 réis (porte simples) e a introdução dos selos com a efígie de S.M.I. Dom Pedro II, em 1 de Julho de 1866.

A MAIOR TARIFA POSTAL CONHECIDA COM SELOS OLHOS DE BOI.

Procedência: ex. Silva Goulart; C. Leite; F. Barata; Amilcar Ângelo; Manfro Cruz; Benevides.

HISTÓRIA

Corria o ano de 1935, em Porto Alegre, pouco antes das comemorações do Centenário Farroupilha, o Sr.Clóvis Leite convidou o Sr Frederico Barata para ir a Cachoeira do Sul, onde afirmava existir uma senhora da tradicional família gaúcha, Silva Goulart, que possuía um velho arquivo de correspondência com abundância de selos das primeiras emissões brasileiras. O fato era verdadeiro. À frente deles foi colocado uma arca de metal, cheia de envelopes de 1843 e anos subseqüentes. Infelizmente, a quase totalidade estava com os selos destruídos, arrancados sem qualquer cuidado, rotos e aos pedaços. Enquanto examinava desolado o desastre, Frederico Barata indagou da anciã porque aquilo acontecera. Disse ela; quando menino, o embaixador João Neves da Fontoura começara a colecionar selos e, volta e meia, estava lá arrancando os selos que queria do precioso baú.

Examinando as cartas uma a uma conseguiu-se encontrar alguma coisa que escapou das mãos infantis do futuro embaixador. Clóvis Leite concordou em ceder a Frederico Barata tudo que havia sido salvo, passando a integrar o conjunto de sua coleção. As peças de Cachoeira do Sul foram exibidas logo a seguir na grande Exposição Comemorativa ao Centenário Farroupilha, onde obteve a Medalha de Ouro.

Eis a relação das principais peças que saíram deste velho arquivo, todas dirigidas ao Sr. José Pereira da Silva Goulart: um envelope com o porte de 270 réis, constituídos por 2 pares horizontais do 60 réis e um selo isolado do 30 réis, ambos os valores em Olhos de Boi; um envelope com par horizontal do 60 réis, Olhos de Boi, obliterado com o carimbo circular grande do Correio Geral das Alagoas, datado de 14.01.1845; uma trinca vertical de 60 réis, Olhos de Boi, sob fragmento, com carimbo do “Correio Geral da Corte”; além vários envelopes com inclinados, sendo dois com 180 réis e um outro com um par de 90 réis.

Sobre esse achado disse Frederico Barata, que faleceu no princípio de 1962, em suas reminiscências publicadas em 1961, no “Brasil Filatélico”, nº 131 às páginas 10 a 13: “quando me lembro do baú de Cachoeira, o que em mim predomina não é a alegria do que foi achado, mas a tristeza do que foi perdido. Só eu e o Clóvis Leite podemos calcular, pelo que vimos, o que seria aquele baú, se na meninice não tivesse o embaixador João Neves tido um ligeiro namoro com a filatelia”.

Em aproximadamente meados de 1950, o colecionador cearense, radicado em São Paulo, Amílcar Ângelo adquiriu a carta diretamente de Frederico Barata e com ela permaneceu por longos quase 50 anos.

Em 1997, o comerciante filatélico Anísio Kahder, atuando como intermediário, vendeu-a ao maior colecionador gaúcho, à época, Orestes Manfro Cruz pelo valor aproximado de US$ 75.000,00 (setenta e cinco mil dólares americanos). Grande campeão brasileiro de Aerofilatelia, proprietário da maior coleção já exibida dos selos aéreos privados do Brasil e ganhador de 3 (três) Medalhas de Ouro Grande FIP, na Classe de Aerofilatelia, pretendia ele montar uma importante coleção de Olhos de Boi.

Entretanto, em 1998 decidiu vender todo o acervo destes selos imperiais, já em suas mãos, dentre os quais, além da “Carta de Cachoeira”, podemos citar: bloco irregular usado de 13 selos dos Olhos de Boi de 60 réis, carimbo de “Cidade de Nicteroy” (maior bloco usado conhecido da chapa de 60 selos); uma sextilha nova no formato 2×3 dos Olhos de Boi de 60 réis e uma quadra nova do 30 réis Olhos de Boi, além de 3 pares verticais, sendo um novo e dois usados e obliterados com os carimbos de “Porto Alegre Sul” e “Correio Geral da Corte” respectivamente. O valor dessa transação alcançou a cifra de US$ 250.000,00 (duzentos e cinqüenta mil dólares americanos) e a “Carta de Cachoeira do Sul” foi incluída pelo valor de US$ 100.000,00 (cem mil dólares).

O comprador do conjunto foi o colecionador carioca, Roberto Seabra Benevides.

O Sr. Roberto Benevides expôs apenas uma vez sua coleção “Brasil: Primeiras Emissões”, e foi na LUBRAPEX’2000, de caráter binacional, onde obteve o Grande Prêmio da Exposição. Estando presente pude verificar que não apresentou nesta exposição o “Par Xifópago” e nem a “Folha dos Olhos de Boi de 60 réis”, já nesta época, ambas as peças de sua propriedade.

Durante minha longa estada em Houston, final do ano de 2001, tomei conhecimento da entrega feita pelo Sr. Roberto Benevides de toda sua coleção “Brasil: Primeiras Emissões” ao Sr. Antonio Torres, negociante e leiloeiro, radicado em Londres, para vendê-la. O Sr. Torres produziu e confeccionou um belo e exclusivo catálogo, todo a cores, e anunciava o negócio, para o outono de 2001, como de “Trato Privado”, estando ali incluídos as seguintes raridades brasileiras: o “Par Xifópago”, a “Folha Completa de 60 selos dos Olhos de Boi de 60 réis”, quadra nova do 30 réis (somente 3 conhecidas), carta do Rio de Janeiro para a cidade de Rio Grande com uma tira horizontal de 4 selos do 60 réis, carta do Rio de Janeiro para Cachoeira (RS) com uma tira horizontal de 4 selos do 60 réis + um 30 réis isolado e um painel completo do selo de 90 réis (18 selos – 6×3) obliterado com carimbos de “Cidade de Nicteroy. Entre os Inclinados pudemos notar: um bloco obliterado de 6 selos (3×2) do 180 réis, uma tira vertical nova de 3 selos do 300 réis, Bloco de 6 (2×3) obliterado do 600 réis, além de uma quadra obliterada e uma tira vertical nova de 4 selos do 600 réis (maior múltiplo conhecido). Realmente um impressionante acervo. De valores, o catálogo nada mencionava.

Em conversas filatélicas com comerciantes locais, colecionadores e expositores internacionais concluiu-se que no valor entre um milhão e um milhão e duzentos mil dólares o negócio poderia ser fechado. Consultado pessoalmente por telefone, o Sr. Torres escusou-se em me dar detalhes sobre essa transação. Apenas mencionou que era um negócio liquidado e que não ocupava mais o seu tempo.

Por esta última afirmação pode-se depreender que a “CARTA DE CAHOEIRA DO SUL” deixou o Brasil pela primeira vez, após ter permanecido em mãos de brasileiros por mais de cem anos. Comenta-se, no mercado filatélico internacional, que toda a coleção foi vendida ao mais importante colecionador espanhol da atualidade, Sr. Luiz Alemany, detentor de centenas de medalhas de ouro e ouro grande e possuidor de mais de quarenta coleções de nível FIP, pela importância de US$ 1.000.000,00 (um milhão de dólares). Comenta-se também que a “Carta de Cachoeira do Sul” foi avaliada nessa transação pelo valor de US$ 100.000,00 (cem mil dólares).

Sobre Marô Vieira da Cunha Silva

Junto com Marco Aurélio Schntz estou trabalhando pelo restauro e pela sustentabilidade da Fazenda da Tafona, localizada no município de Cachoeira do Sul - Rio Grande do Sul. A Fazenda já conseguiu certificação como produtora de orgânicos e sua casa foi tombada como Patrimônio Histórico de Cachoeira do Sul e do Estado do Rio Grande do Sul.
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3 respostas para A Carta de Cachoeira do Sul

  1. fabio monteiro disse:

    A carta acima foi leiloada em Zurique em 13 de junho de 2013, o martelo bateu aos 155 mil francos suícos. Detalhes aqui:
    https://corinphila.ch/en/_auctions/&action=showLot&auctionID=4&lotno=217#

    E aqui temos uma carta de Liberato Vieira da Cunha a seu pai, José, datada de 15 de setembro de 1825:
    http://selosdobrasil.forumeiros.com/t9320-de-liberato-a-jose-vieira-da-cunha-em-setembro-de-1825

    Abs do fabio

    • Marô Vieira da Cunha Silva disse:

      Olá Fabio, te mandei um email (fabioshiro.monteiro@gmx.de). Olha lá e me responde!. Estou adorando teus comentários e links. abr.

  2. fabio monteiro disse:

    Obrigado, mas näo recebi o email. Poderias enviá-lo novamente?

Olá, se você gostou, tem alguma comentário ou quer informações sobre o assunto, manda ver por aqui. Abr.!

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